segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A ERA DOS CARACÓIS, Crônica

(Para Benedito, caracol respeitoso, amigo novo, cílios espessos, olhar sábio)

O caracol é um bichinho estranho, sem pernas, alonga-se pela terra deixando atrás de si um rasto espumoso, feito barco no mar. Carrega nos costas sua casinha, leve e cheia de desenhos concêntricos em tons de ocre. Afinal é um simples molusco: lesma, com ou sem concha bem pequena e arredondada; caramujo terrestre ou aqüatico, com concha mais resistente; e os caracóis mais comuns, um tanto menores que os caramujos, com concha mais frágil. Algumas das espécies são até comestíveis, verdadeiras iguarias que, servidos em pratos especiais, exalam alho e mudam de nome para escargot. Existe mesmo um tal de Caracol de Pascal, que é só conhecido por grandes especialistas em geometria, ciência à qual o Sr. Pascal deve ter contribuido com seu estudo sobre o cálculo de distâncias em lineas concêntricas. Tudo isto só por ter ouvido falar.
Enfim, preciso me lembrar de consultar minha amiga Neuza a respeito, visto que o assunto caracol parece restrito mormente a biólogos. Mas só parece. Bem rapidamente teremos que consultar antropólogos e especialistas comportamentais pois, de uns tempos para cá, caracóis estão invadindo ruas, praças, metrô, ônibus, cidades inteiras. Em todo lugar há caracóis; e o mais estranho é que eles são bípedes! Melhor ainda: dá para identificar quais são mais inteligentes e mais respeitosos do próximo.
Explico: a maioria, sem raciocinar, carrega - como a natureza e os fabricantes ensinaram - sua casa nas costas. Dizem que é em benefício da espinha dorsal. Que espinha se são celenterados?...
Há outros porém que acabam carregando suas casas não nas costas, mas no peito: claro, assim seu manuseio torna-se mais fácil, melhor para protegê-las dos larápios, e finalmente, é melhor para manobrá-las sem atingir o próximo mais próximo. Com os apertos das conduções, todo próximo é mais do que próximo do próprio próximo.
Os que insistem em carregar a casa nas costas vivem golpeando, a cada virada, seu vizinho de trás. Outro dia vi uma moça bonita, um tanto baixinha, levar na cabeça - e nos óculos - a casa de um brutamonte que, não tendo percebido nada, nem pediu desculpas.
É claro que os jovens bípedes que vão à escola, devem poder carregar em suas casinhas, livros, cadernos, lápis, merenda. Mas, pergunto: os adultos precisam carregar toooda sua casa nas costas? Mil bolsinhas, compartimentos, ziperes dentro e fora: acham sempre o que querem? E tem sempre SÓ o que precisam?
Veio-me uma última pergunta: ao chegar à noite, esvasiam aquela casinha retirando tudo aquilo de que não precisarão amanhã?...
Caracóis por caracóis, antes de estar entre eles sempre alerta para não ser agredida, sinceramente prefiro sentar à mesa e regalar-me com eles, ao molho provençal, com bastante alho.

Um comentário:

André Al. Braga disse...

agora vou pensar duas vezes antes de colocar minha mochila nas costas rs rs rs... pois já carrego nas costas, muitas coisas além da "casa".