quarta-feira, 19 de novembro de 2008

HABEMOS OBAMA - Ensaio

Sem fumacinhas, brancas ou pretas; sem paramentações ou alvas vestimentas; sem ar embevecido de humildade; sem ascetismos. Ele surgiu, como do nada, obscuro senador provinciano, internacionalmente desconhecido. E com a aprovação - amplamente demonstrada nos noticiários - de meio mundo, quiça do mundo inteiro. De onde tanta unanimidade?
Preparado? Quanto qualquer outroex-presidente, melhor até de alguns. Formado em duas das mais prestigiadas faculdades do país, casado com uma mulher culta e carismática, duas filhas: a típica família americana, classe média, sem tecnicólor. Provavelmente mais preparado ainda por já ser, por nascimento e criação, um cidadão do mundo, com convivências, familiar e "territorial", das mais variadas e heterogêneas. Isto cria, em cérebros de abertur ímpar, calor, entendimentos, compreensão, sobrevivência e uma capacidade infinita de conceder.
Inteligente? Nenhuma inteligência mediana, em menos de dois anos de "exposição" política, sairia de senador para o primeiro plano de uma campanha para Presidênciaa de um país como aquele.
Corajoso? Seguramente: após enfrentar acusações de todos os tipos, do islamismo ao terrorismo, da malversação (por um pastor!!! Haleluya...) à utilização de sua cor como bandeira eleitoreira, ainda teve a coragem de recusar o apoio dos seguidores de Malcom X que continuam batalhando não por igualdade, mas por um Estado Negro. Sua campanha eleitoral arrecadou - conforme permitido pela legislação daquele pais - a cifra recorde de 700 milhões de dólares: evidentemente não provenientes dos bolsos negros, a minoria menos abastada. De fato, e é de estarrecer, ganhou por pouco mais de 53% dos votos, dos quais somente 13% negros. Num país onde o U-klux-klan ceifou milhares de vidas em nome do racismo; onde ainda florecem comunidades hitlerianas (controladas a distância em nome da democracia); onde já quatro presidentes foram assassinados; um Barak Hussein Obama, com um nome que revela origem negra, africana, árabe e islámica, deve ter coragem. De todas as comunidades mundiais que aplaudiram sua vitória, uma única personalidade internacional (Kadafi, justo um líbio ditador e terrorista mediterrâneo) demonstrou preocupação ao dizer: "Temo por sua segurança".
Honesto? Seguramente, caso contrário seus oponentes já teriam, durante a campanha eleitoral, enquadrado e divulgado bens ilícitos, propinas, bandalheiras.
Autoconfiante? Ele tem uma confiança tão absoluta de estar no caminho certo que, no discurso apos vitória em praça pública de Chicago, sem ler e de improviso,traça o perfil definitivo
de uma nação em uma frase que permanecerá na história americaqna e mundial:
"Se existe alguém que ainda duvide que os Estados Unidos sejam o lugar onde todas as coisas são possíveis; que ainda questione a força de nossa democracia, a resposta está aqui, esta noite.(4.11.2008)"
Daqui em diante esta citação transformar-se-á em bandeira, orgulho e ditado, como aconteceu com a primeira frase de um discurso de Martin Luther Kind nos anos 60 " I had a dream! - "Eu tive um sonho". Interessante ainda o fato de que Obama fez referência a King unicamente no discurso de vitória e jamais em sua campanha eleitoral.Fez questão de não "apelar", evitando toda e qualquer pieguice.
Bem intencionado? Sério? É certo que está consciente do grande desafio que o espera:
- Ele sabeque não pode decepcionar um povo que votou nele primordialmente para livrar-se de um Bush inépto, superficial, mal aconselhado, cuja impopularidade tornou-o quase risível.
- Ele sabe também que para livrar-se de Buch o povo poderia ter votado em McCain, mas McCain é só um ferido de guerra promovido a candidato pela bandeira do patritismo, ainda membro de uma elite tradicionalista que não inovaria, e cuja mulher multimilionária não democratizaria em nada a imagem da Casa Branca.
- Ele sabe, o povo sabe, - e o povo sabe que ele sabe - que a sua frase de campanha "Change we can" não é somente uma promessa, é uma conclamação dirigida ao povo e que o povo aceitou. Muito estrategicamente sua campanha foi baseada nisto: no "Nós mudaremos", no "Nos podemos mudar".- "Plural Majestatis" na melhor forma da Roma de César; contra o "eu estou com vocês" do McCain, ele convidou "Vocês estão comigo, nós vamos mudar" e o povo aceitou. Não é somente o Presidente descendo às ruas , mas o povo entrando na Casa Branca. O poder dentro dela.
- Ele sabe que tem mil e um desafio a vencer, sendo o mais grave a situação econômica que - de resto - só estourou no meio da campanha eleitoral e para a qual ele poderia não estar praparado. Mas ele, firme, encarou o desafio. A crise americana - alastrada mundo afora - colocará sobre Obama, um microscópio feroz, constante, implacável: um cheque assinado esperando os fundos de cobertura que pareceriam dever sair diretamente do bolso do próprio Presidente Americano.
Assim mesmo a unanimidade espalhou-se aos quatro ventos. O mundo, e especialmente a Europa, tão orgulhosa de sua predominância cultural, de suas origens históricas, humanísticas e artísticas, e de sua importância mundial e ancestral, está aplaudindo a verdadeira democratização da América. Para ela Estados Unidos é América, um continente que abraça dois continentes num só, de Norte a Sul, e que finalmente curvou-se perante o reconhecimento da pluralidade de raças em coesão nacional.
Sei que é bastante deselegante citar-se a si próprio, mas vou fazê-lo assim mesmo, pois há pelo menos dois anos, num ensaio em que analisei os dois filmes de Clint Eastwood sobre IwoJima, preconizei:
"...o filme "Flags of Our Fathers" (" A Conquista da honra")....pode parecer uma afronta ao patriotismo exacerbado do dia-a-dia do povo americano....mas não é: Eastwood fez do filme uma ARMA PARA LEVAR AO AMADURECIMENTO O POVO AMERICANO QUE, APÓS ANOS E ANOS NO TOPO DO MUNDO, DEVERÁ COMEÇAR A CEDER À HUMANIZAÇÃO DAS RAÇAS E PASSAR DE HUMILHANTE - POR SUA PUJANÇA - A HUMILDE POR CONFRATERNIÇÃO. E QUE ISTO LEVE TEMPO, SE FOR PRECISO. NÃO HAVERÁ DESONRA NISTO".
Não levou tanto tempo assim. Eastwood e Obama lêem pelo mesmo prisma a história do país, e um senador jovem, inteligente e arrojado, parece empenhado em concretizar o que eu, ilustre joão ninguém, só cogitara em hipótese.
Pois aqui estou eu, mera aprendiz de escritor, sem nenhuma formação universitária mas carregada, na pele, de experiências de vida, septuagenária, caucasiana, romana e católica que presenciou, ao vivo ou por TV, dezenas de fumacinhas pretas e brancas ao longo de seis papados, aqui estou eu, pronta a depositar num americano desconhecido, da mesma idade de minha filha, a determinação de mudar e ajudar a mudar.
Acordar com uma pergunta: o que eu posso fazer para mudar, em meu favor, em favor do mundo, do planeta, da natureza, do meu próximo? Na minha idade parece não haver muitos futuros a serem projetados. Agora eu pareço ter encontrado um.
Só por ter semeado estas perguntas no coração e nos cérebros dos seres do mundo, Obama já cumpriu uma boa parte de sua missão; mas o que é certo e evidente é que além da semente firmou-se a aceitação para uma mudança que, o mundo inteiro já pressentia, há muito tempo deveria ter sido abordada.
Se saberá dialogar com outras nações, se virá a ser um bom Presidente para os Estados Unidos, se driblará a crise, ninguém sabe. Em nenhuma eleição de qualquer candidato isto jamais foi ou seria garantido.
Portanto, bem-vindo Obama a esta hercúlea tarefa que é conversar com o mundo. Ajudar ou ser ajudado por ele. Perder ou ganhar com ele.





2 comentários:

sandra disse...

É isso ai! Falou e disse. Por favor, Bruna, não pare de escrever. bedjo san

Karen Kipnis disse...

Bruna: agora, com mais calma, dou uma passadinha no seu espaço virtual e paro para tomar um café,enquanto me envolvo com suas palavras e reflexões.Bela matéria!

Beijo e axé, KK