segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"MIOSÓTIS", Tom


"MIOSÓTIS...

Na penumbra do bar, só a chama da vela. Palavras ao vento, átonas. Um leve deslizar de seus dedos debaixo dos meus e os meus começando a cobrir os dela. A surpresa do contato hermético do dorso de suas mãos na palma das minhas, a súbita irrefreável necessidade de uma aderência total, de peles e pelos, de contornos e de rugas. E de cheiros.
Algo tão forte que não pôde ser negligenciado, nem perdido, nem adiado.
No semitom de sua voz, um curto bemol: meu nome "Tom".
Seu aroma tem encharcado meus dias, por meses. Ana, meu braço direito, minha interprete, meu apoio seguro na lida com jovens estagiários cujas ansiedades profissionais puseram frequentemente em xeque meu equilibrio didático.
Agora minha missão acabou. Volto para casa...
A poltrona do avião, o cinto de segurança, meu próximo destino: o frio de Chicago.
Quero esquecer tudo mas não posso. Foi forte demais, definitivo demais.
E tarde demais.
Hoje de manhã a despedida. O vapor do chuveiro a envolver-nos, a exalar de novo o perfume que já era a própria Ana, e que agora tinha sabor.
"O que é?"
E sua voz abafada no escorrer do meu peito: "Wind".
A sacola do freeshop me queima as mãos: a miniatura vermelha da Ferrari para Rick, a bonequinha em traje típico para Lilly. Mas a caixa dourada do Wind foi um erro.
Ter comprado o perfume para Jenifer foi um erro. Sinto-me aviltado, desprezível, envergonhado...o que faço com isso...
Sempre amei Jenifer, sua flexibilidade de atleta, seus orgasmos sussurrados para que não passassem das paredes, sua tranquilidade, seu rastro de alfazema que incorpora o cheiro dos mil abraços dos meus filhos, das gavetas arrumadas, dos lençois frescos de estampas campestres. E aquele seu "Tom" com um O infinito em dois tons, como se me chamasse sempre de longe...Sou um estúpido, um covarde...Não posso levar o Wind para ela...
O que faço com isso...
Vou largá-lo no avião, esquecido de propósito. Ou talvez o dê à aeromoça que me serve o drinque. Mostro-lhe o papelzinho enrolado que Ana deslizou no bolso de minha camisa no último abraço.
"Conhece esta palavra? morei aqui só poucos meses..."
Um sorriso quase maroto, mas a voz inalterada:
"Miosótis? é uma florzinha azul pequenina, sem cheiro, vocês a chamam forget-me-not..."
Foi como sorver minha última esperança de esquecer.
Aqui, agora, perdido entre duas ausências.

...FADED AWAY", Ana

Ontem, alguém: "Ana e seu sorriso?"
Já passei pela fúria titânica de Medéia.
Já me investi em Parcas a re-fiar e re-tecer sua vida e a minha.
Em Penélope rebordei meus sonhos, aceitando a espera.
As linhas estão perdendo a cor.
Já faz muito tempo.
Tempo demais.

Até já ganhei uma promoção importante pelo tanto que aprendi aqui com você...

E você, Tom, me ligando ainda com seu desespero da ausência.
Parece fazer questão de me trazer sua voz, e com ela nosso suor.
Mas nunca me diz "venha".
E nunca me diz "venho".
A espera - e o esperar - mudam as pessoas.
Se eu fosse, talvez você não fosse mais o mesmo.
Se você viesse, talvez não me reconhecesse.
A ansiedade da espera acaba com a realidade de projetos.
E o tempo acaba com os projetos.
Tenho em você um grande amor vivido.
Não vou esquecer.
Ainda tenho porquê viver.
E quando Athropos cortar meu fio, terei de volta o sonho.
Intácto.

3 comentários:

Tânia Tiburzio disse...

Ahhh, tão bonito!!! Não vou dizer que amei (você não gosta), mas achei lindo.
Beijos!!!

david disse...

Bruna.
É, sem dúvida, em cada linha, você escrevendo.
Belíssima declaração de amor, arrependimento, dor da partida...
Só achei que depois do FADE AWAY o ritmo mudou por demais. Até parecem dois textos distintos. Além de que até o FADE AWAY (inclusive), o texto tinha se completado, ao meu entender.

Blog da Bruna disse...

Caro David, obrigada pelo seu cometário. São dois textos distintos, sim. O primeiro é o "impromptu" da confusão mental de um homem apaixonado entre despedir-se de um amor novo e enfrentar um já estabelecido. O segundo revela o a mulher que, passado tanto tempo sem uma definição, vê seu sonho e amor desgastado e só tem uma sokução para não perdê-lo: congela-lo na memória.Duas cabeças, dois momentos, dois estilos, dois textos. Discutamos mais, quer?