terça-feira, 19 de junho de 2012

MEDITERRÂNEO

Na Toscana meridional, entre as colinas que escalam suavemente os Apeninos, perto de uma localidade chamada Poggio alle Mura foi descoberto o maior e mais antigo fóssil de baleia encontrado na Itália. Os paleontólogos ainda festejam. O lugar, à distância de mais de trinta quilômetros do mar, nos reporta a um pensamento extraordinário: que lá, em Poggio le Mura” o fundo marinho de mais de cinco milhões de anos atrás, era o habitat natural de baleias e hoje é terreno ideal para uvas de qualidade invejável.

Andando por aquelas redondezas há pouco mais de um mês, lembrei de uma entrevista em que um jornalista eslavo - cuja nome complicadíssimo, não conseguiria lembrar, nem sob tortura,- citou o Mediterrâneo como - e espero reconstituir a frase corretamente, “um mar que não é oceano, mas um mar, pequeno mar nosso, no meio de terras”. Pelo detalhe do “pequeno mar nosso” foi que imediatamente lhe atribui, levando também em consideração a difícil grafia do seu nome, uma nacionalidade banhada pelo Adriático, braço alongado e intimista do “Mare Nostrum.”

E ele, este Mediterrâneo maravilhoso e perfumado, realmente está no meio de terras, seu espírito infiltra-se terras adentro, não importa a quem pertençam. Um mar que não é só lugar geográfico, mas lugar de alma. Aqui se encontram dezenas de povos, milhares de ilhas e milhões de seres humanos. Um mar que, para os justos, une , para os imorais separa.

O Mediterrâneo, - e o esqueleto da baleia provou - invade as terras, todas as terras. Dele emerge um sabor inconfundível de sal e vento, que sopra através dos pinheiros marítimos, infiltra-se pelas praias, pelas curvas das falésias, por botes, barquinhos, lanchas, canoas e pelas balsas que unem margens, aldeias, povoados, cidades. E leva por toda parte o perfume da menta, do orégano, alecrim, lavanda. E do manjericão.

Cada um vê e sente seu próprio Mediterrâneo, mesmo sem ver as praias, mesmo sem estar em suas margens.Eu já estava em Roma e o mar estava presente, no garrir das gaivotas em cima do Tibre, na infinidade de altos e esguios pinheiros marítimos. Como se a cidade estivesse a beira mar. Desse meu sentimento mediterrâneo, e na profundidade do meu próprio ser, voltou a emergir aquela sensação infantil do cheiro dos plátanos, dos ciprestes, dos pinheiros.

As Fontes e os Pinheiros de Roma. Respighi inebriou-se deles, os imortalizou em suítes eloquentes, levando seu perfume junto ao cristalino das fontes que, perpétuas, jorram água sobre mármores poidos a enriquecer-lhes a candura.

Nas paredes de minha mais remota memória voltam a criar-se paisagens: afrescos, lavados a chuva e briza, que ficam arquivados na mente e no paladar, como fossem vinhos saboreados ao por do sol, num imenso terraço que contempla e transpira o horizonte. Horizonte: aquele fiapinho de linha que mar e céu disputam sempre. E jamais conquistam.

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