quinta-feira, 10 de setembro de 2009

EPILÉTICO, conto criado para a oficina de Marcelino Freire

-disto se morre?
-Tomando remédios, posso sentar e escrever bastante mesmo depois da lição de casa?
-meus colegas da escola vão ter que saber?
Sentado à escrivaninha, o menino estava angustiado. Na escola percebia que o achavam diferente por preferir estudar do que brincar e zombavam de sua cultura precoce.
O médico havia tentado tranquilizar a mãe que estava apavorada. Mas tinha receitado muitos remédios, e feito mil recomendações. Estar alerta quando começasse a sentir comichões e zumbidos. Seria normal, em hora de crise, ver sumir as cores ao seu redor. E seria bom que tivesse alguém por perto naqueles momentos. Mas também tinha dito que muita gente famosa sofria disto e, “se ficou famosa é porque viveu bastante, não é meu garoto?”
Agora, enquanto a pena continuava tropeçando e espirrando tinta em volta das palavras que lhe surgiam incontroláveis, tentou lembrar os nomes dos escritores que o médico havia mencionado. Será? correu às enciclopédias e, sim, realmente Dostoievski e Flaubert tinham morrido aos sessenta anos. Sessenta anos é uma idade respeitável.
-posso escrever muito até ter sessenta anos!
A pena acelerou suas ranhuras sobre o papel rústico: linhas e mais linhas a criar cenas, personagens, conflitos. Rápido. Pois sabia que a qualquer momento poderia ser interrompido. Foi justo então: o rosto triste da mãe aparecer na porta.
-Venha Joaquim: o almoço está na mesa.

PS ---- Conto surrealista: propositalmente quis induzir o leitor a imaginar tratar-se de Machado de Assis criança, quando isto é impossível: os três escritores foram todos epiléticos mas praticamente coetâneos.
Dostoievski -1821-1881
Flaubert -1821.1880
Machado de Assis - 1839-1908

Um comentário:

Tânia Tiburzio disse...

Oi, Bruna!! Ficou ótimo!! Adorei.