sábado, 7 de agosto de 2010

O OCASO

ou

O CAMINHO DE VOLTA DA LINHA AMARELA
PARA A MINHA CASA ......


Não é grande distância, assim mesmo uma avalanche de sensações andaram invadindo minha mente.
Foi assim também quando, mais de trinta anos atrás, entrei pela primeira vez no recém inaugurado terminal de Roissy. Aquelas escadas rolantes embutidas em túneis transparentes subiam e desciam entrelaçando-se no ar, verdadeiro espaço aéreo interno num pé direiro estratosférico. Naquela ocasião estranhei que eu não estivesse vestida à maneira de Barbarella, heroína cinematográfica que, em 1968, Roger Vadim colocou no século 41 de forma futurista-quase-erótica. As roupinhas incrivelmente bem comportadas, em termos de hoje, que Paco Rabanne criara para o filme, acabaram popularizadas nas mulheres do mundo inteiro, contanto que esbeltas e dinâmicas. E Roissy foi, naquela época, o "non-plus-ultra" da inovação em aeroportos.
Foi assim também quando, naquela mesma época, sai de um cinema atordoada com espaçonaves que dançavam no firmamento ao som das valsas de Strauss, enquanto seus problemas internos, técnicos e humanos, venciam o suspense nas notas dramáticas de Khatchatourian. Quantas vezes depois daquele dia me reprometi investigar se Stanley Kubrick selecionou a suíte sinfônica quando idealizou o filme em 1968, ou se a encomendou ao musico russo especialmente para servir de fundo ao seu "2001: Uma odisséia no espaço". Nunca o fiz, mas sei que nenhum outro tema poderia substituir o som devastador de "Assim falou Zarathoustra". Se Zoroastro, como é mais conhecido aquele personagem mitológico, séculos antes de Cristo, conseguiu constituir a base religiosa do seu povo, ninguém melhor do que sua "voz" para trazer de volta à realidade, e à terra, uma aventura espacial do século XXI, como imaginada em 1968.
Quem manda ruminar tantas coisas ao mesmo tempo...
A minha cabeça agitada por tantos lampejos, num misto de passado e presente-imediato, de repente me forneceu um dado surpreendente: Kubrick, quando idealizou o filme em 1968, adiantou em 33 anos a realização de uma odisséia espacial de 2001. Trinta e três anos! Como a idade de Cristo!
E isso tem importância? Certamente que não! Assim mesmo o raciocinio surgiu e de nada adiantou eu saber que Kubrick era judeu...
E por que todos esses turbilhões...Por que tantas lembranças afloraram junto a sensações, raciocínios e reações surpreendentemente atualizadas, mas baseadas em recordações vindas de tão longe?
Culpa da "Linha Amarela"!
Foi desde minha primeira entrada naquela novíssima estação de metrô, que minhas antenas se aguçaram. E, à minha saída, sabia com certeza que tecnologia, criatividade, ousadia, arrojo e bom gosto haviam desfilado perante meus olhos. E eu estava feliz por mais essa surpresa na minha vida.
Novamente a fantástica demonstração de que ela, a minha vida tão venturosa, sempre caminhou ao longo de descobertas, invenções e criações que, em sua trajetória, atravessando guerras e crises, escreveram o roteiro do futuro.
Mas nenhum roteiro é definitivo: novos horizontes, novas soluções...mais descobertas, mais invenções...novas surpresas, novas criações...novas idéias...
Novos futuros ainda virão. Tudo inaudito, inesperado, incrível, prodigioso...

Deus meu, por que já tenho setenta e seis anos...

2 comentários:

Tânia Tiburzio disse...

Amei seu texto e quero também andar na Linha Amarela. Beijos!

Benedito Deíta disse...

Você só me deixa uma saída. Tentar entrar por um lugar, onde, por mais que continue confuso, busque descrever esta confusão. Como consegue ser tão clara, apesar de tantos lampejos, sobre as sensações que teve por tantas jornadas? Invejo-lhe mas desejo que continue com a possibilidade de tantas sensações, pelo menos para me sinta estimulado ao mesmo, e tentar tocar o outro com tudo que esteja para sentir.