quinta-feira, 10 de julho de 2008

A Flor

Miniconto


Sentada no ônibus, ao lado da janela, o sol batendo forte. O elétrico está parado. Algum problema na corrente, ou na voltagem, sei lá. O motorista mexendo lá atrás. Não posso trocar de lugar; está cheio e ainda tenho pelo menos dez paradas até chegar lá. O jeito é esperar.
Olha lá como melhorou esta avenida, tem até canteiro cheio de plantas, grama, florzinhas amarelas. Mas olha lá adiante. Tem uma, de haste alta, que está por abrir, parecendo um guarda-chuvinha cheio de pequenos botões de um lilás azulado. Parece um agapânto. É um agapânto. Quem sabe ficamos aqui parados o tempo suficiente para vê-lo abrir totalmente.
Era a flor que mais dava no jardim do meu jardim de infância. Agapântos em versão alternada: azuis e brancos. Azul como o avental que as freiras obrigavam a gente a usar. Branco como a gola engomada e o laçarote listrado nas duas cores. Gente! Faz pelo menos sessenta e cinco anos, ou mais...
O elétrico continua parado. Muita gente, sem paciência, desce buscando outra condução. Como faz a senhora sentada à minha frente, com uma menina de uns seis ou sete anos.
“Venha Carlinha, cuidado ao descer, estamos atrasadas, vamos pegar um táxi”.
As duas passam ao lado do agapânto.
Carlinha arranca a flor e mostra à mãe:
“Bonitinha, né? Mas ainda não abriu” e a atira no meio da avenida.
Passa um carro. Fica uma mancha azulada no asfalto.
Era só uma flor.

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