terça-feira, 8 de março de 2011

SURDO MUNDO


    Autor: David Lodge
    Título original: Deaf Sentence 2008
    Tradução: Guilherme da Silva Braga
    Editora: L&PM - 2010


    Ao folhear o livro o leitor pode assustar-se. Páginas maciças de escrita compácta, às vezes inteiras sem quebra de parágrafos. Uma densidade gráfica bastante incomum entre os escritores contemporâneos que já nos acostumaram a uma leitura ágil de frases e parágrafos curtos. Lodge é um daqueles escritores ingleses que mantém a descrição detalhada tanto de lugares como de personagens e acontecimentos. Mas nem por isso o leitor perde o interesse, muito pelo contrário. Apesar de ser apresentando como um romance, num primeiro momento seu título leva a crer tratar-se de um compêndio sobre os mal-entendidos de conversas entre surdos, especialmente pelo trocadilho do nome Deaf Sentence/Death Sentence - o que não deixa de ser compreensível, para quem é surdo, considerar o defeito como falência e morte da convivência. O autor se esmera em procurar frases facilmente irreconheciveis e deturpadas pelo ouvidos defeituosos. Auxiliado por um excelente tradutor que conseguiu - e não deve ter sido fácil - trazer para o nosso idioma, situações eficazes com um fraseado muito realista, o livro é, afinal, bem prazeroso. Para quem esperava que fosse um livro só dedicado aos percalços da surdez, é uma grande surpresa. O personagem principal é um professor universitário que resolve aposentar-se antes da hora, justamente por não mais poder escutar e entender alunos e discussões durante as aulas. Entre diversas situações delicadas no meio universitário que ainda frequenta, e a lida com uma segunda esposa empresária, com os filhos do primeiro casamento e com os netos, ainda assiste o velho pai que, além de ter também ficado surdo, começa a apresentar graves sinais de senilidade. Diálogos e cenas com ele são imperdíveis de bem cuidadas, cheias de momentos nostálgicos e frequentemente de humor. É nessas situações que Lodge transforma, com muita graça e sabedoria, o homem de letras um tanto irritadiço por sua deficiência, num ser humano mais "macio", mais compreensivo, mais aceitante de suas limitações e das dos outros, começando a divertir-se até nas aulas de leitura labial antes apenas toleradas para agradar a mulher. Lodge escreveu o livro em primeira pessoa, entretanto em alguns capítulos - ou parte deles - sem mais nem menos avisa candidamente o leitor de seu ímpeto irresistível de passar a relatar certos fatos em terceira pessoa. Com a mesma simplicidade volta à terceira pessoa sem prejuizo da continuidade e da coerencia. Ele usa essa alternência com um ar realista e crítico. Nessas ocasiões é que me perguntei se Lodge também seria surdo como sua personagem. E como eu. Vale levar esse livro nas férias para, quando cansados das andanças do dia, queremos algo bom e leve antes de dormir. Mas atenção: qualquer descuido e estaremos varando a noite.

    domingo, 6 de março de 2011

    OSCARS & OSCARS

    O Discurso do Rei


    Colin Firth e Geoffrey Rush: dois artistaços carregam o filme nas costas com suas interpretações, ambos dignos da premiação que só um levou. Uma fotografia competente eleva os dois à estratosfera durante os diálogos. E não somente isso. O fotógrafo consegue também criar uma metáfora muito expressiva: --Primeiro, nas imagens de neblina e chuva no e do interior de um carro onde o casal, que poderia ser um casal qualquer, é protegido por aquela impermeabilidade toda, enquanto troca dúvidas e angustias. --Depois pela visão impressionantemente bem conseguida do alto da nave central de Westminster que reduz praticamente a pó a imagem de quem está saindo dela.


    O percurso de um homem a caminho do reinado de um País e da religião que é nele embutida. Helena Bonham-Carter, como atriz coadjuvante, no papel da esposa e depois rainha, só convenceu por ser apropriada fisicamente ao papel: quem lembra da rainha-mãe da atual Rainha Elisabeth, viu claramente que a atriz, ao envelhecer, será sua fiel imagem: pequena e roliça.


    A primeira parte do filme, bastante enfadonha, é prolixa em algumas situações. Também, durante as várias tentativas da reeducação verbal, foi infeliz a referência às pedrinhas na boca com que - ao dizer do folclore - o gago Demóstenes tentava controlar laringe e traquéia. O que estragou mesmo foi a revelação - demasiadamente antecipada e numa cena ruim - da carreira frustrada de ator do "educador".


    Tirou do público o impacto da descoberta, quando acusado pelo rei. O Diretor Tom Hopper dirigiu o filme com luvas cirúrgicas para não arranhar a já tão desgastada casa real. Um corretíssimo roteiro, quase documentário, que não pareceu trazer nenhuma contribuição exemplar à arte cinematográfica. Estou ficando cada vez mais exigente quando vou ao cinema. A arte já tem diretores que marcam com veemência parâmetros cada vez mais elevados. O Discurso do Rei é um bom filme. O melhor da safra?




    CISNE NEGRO


    Na fábula musicada por Tchaikovsky, os cisnes eram efetivamente dois e na maioria das montagens teatrais, dançados por duas bailarinas diferentes. Portman é arrasadora na revelação, minuto a minuto, de um personagem tão duplo quanto o papel dos cisnes, o branco e o preto, que deve dançar. Não somente mereceu o premio de melhor atriz, mas ela, Nina-bailarina, estabeleceu um parámetro bastante definitivo na identidade dos dois cisnes. Não estamos falando da identidade-bailarina (sabemos do virtuosismo das câmaras que nos enganam nos momentos mais eloquentes da dança) mas do empenho, do "inner-ego" da Nina-Portman E de cada um dos dois cisnes. Não devemos avaliar Portman como bailarina, apesar de ter ficado bem evidenciada a competência com que ela investiu-se do papel com as partes do seu corpo que podiam sublimá-lo. O roteirista assumiu tanto os personagens do "Lago dos Cisnes" que dá oportunidade ao coreógrafo de comportar-se como o Mago da fábula, enganando Nina quanto à escolha definitiva do papel, provocando assim na já conturbada dançarina, mais uma explosão de angustia. Como Nina, Portman lança mão de um semblante sombrio com que esconde a impaciência para com sua mãe; a furtividade com que rouba os apetrechos da rival; a sutileza com que os orgasmos "solos" a investem de um prazer ignorado. Aliás, é justamente então que reparamos na qualidade do Diretor. Ele conseguiu- evidentemente através de efeitos visuais rebuscadíssimos - que os arrepios da epidérmide da protagonista tivessem, em cada poro, a quase imperceptível consistência da pele onde, a qualquer momento, surgiriam plumas. É a paulatina transformação da mulher/ bailarina em cisne. E só percebi isso na segunda vez em que assisti o filme. O Diretor Darren Aronofsky - o mesmo que nos emocionou com aquele "Wrestler" trazendo de novo à ribalta o então sumido e excelente Mickey Rourke - criou em volta da protagonista um emaranhado de grades, cercas e reticulados para aprisionar-lhe o espírito: -- as paredes apertadas da casa onde mora; --o espelho de recortes geométricos na entrada do apartamento que lhe secionam o semblante ao passar; --seus percursos nas coxias estreitas do teatro, onde, até quando ela senta no chão para amarrar as sapatilhas ou preparar-se às provas, é sempre num canto tão agudo onde mal cabem suas costas; --ela nunca anda pelas ruas, ou está dentro do metrô, de um taxi, dentro da cabine de banheiro, ou rapidamente na saida de uma boate obscura; --ela só tem espaço na grande sala de ensaios, ou no saguão do teatro, assim mesmo quase achatada por uma imensa escultura negra e alada; A maior área aberta em que o Diretor a coloca é a praça em frente ao teatro, para depois de poucas frases trocadas com o coreógrafo, jogá-la num hospital visitando uma suicida. Esse Diretor, que assumiu para si os sentimentos e as trepidações de três cisnes - dois do bailado e um da protagonista - ainda foi capaz de criar um duelo verbal, agressivo e enternecedor, entre dois grandes intérpretes: Portman e Cassel. Bastaria só o momento em que Cassel-coreógrafo transforma voz, expressão corporal e olhar, ao dizer " Eu acabei de seduzir você, agora é a sua vez", para definir o personagem "coreógrafo". Um Vincent Cassel - que vinha de interpretações apenas corretas em papeis de pouco peso e muita movimentação - nos surpreende com nuances de sutis transformações interiores: passa da fase de mero observador técnico, à de provável aproveitador de meninas que fariam qualquer coisa para conseguir o papel de cisne; do frio mas diplomático descartador de talentos esgotados à gradativa capitulação perante um talento novo e arrasador sim, mas impregnado de inseguranças, medos, frustrações. Capitulação que o humaniza apesar de si mesmo. Há inúmeros outros detalhes que fazem desse filme uma obra tão marcante. O mais marcante de todos - e reconhecido - é Aronofsky ter escolhido Natalie Portman para o papel. Seu talento é indiscutível. Desde os 13 anos, no papel da pré-adolescente naquele "Leon" * de cortar o fólego, ela interpretou muitos filmes diferentes, pondo a prova sua capacidade eclética de transformação e amadurecimento. Eis uma atriz que, a menos de trinta anos de idade, parece ter esgotado a procura do personagem-desafio. Sua interpretação é tão arrebatadora quanto perigosa: dificilmente em sua vida profissional se deparará com outro papel tão definitivo.






    *1994, produção Franco-Americana dirigido por Luc Besson, com Jean Reno Gary Oldman e Danny Aiello

    terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

    FAHRENHEIT 451

    MONTAGEM PARA A FORMATURA DE NOVOS ATORES

    NO TEATRO-ESCOLA CÉLIA HELENA


    Jovens, empenhados, vibrantes, emocionados. Merecedoramente aplaudidos. Eu estava lá, inveterada amadora do teatro a todos os níveis, e gostei. A meninada mereceu. A Cenografia interessante ocupou os espaços do palco com bastante propriedade. Já a Iluminação, apesar de ter usado muito bem as luzes vermelhas para enquadrar a violência ideológica que condena a cultura, deixou frequentemente demais na sombra os rostos e suas expressões. A Preparação Corporal trabalhou em favor de composições grupais que, em momentos de intencionais imobilidades, pareceram retiradas de pinturas que nos remeteram às mais íntimas e longinquas reminiscências de museus. De grande efeito, portanto. Entretanto a Trilha Sonora, mesmo bem escolhida, na maioria das vezes entrou em tom alto demais invadindo o espaço verbal tanto do coro quanto dos personagens. Aí foi que a Preparação Vocal pareceu pecar. Entre as moças a maioria delas, na preocupação de falar alto o suficiente para alcançar a platéia, acabou transformando a própria voz em sons tão estridentes que chegaram a prejudicar a compreensão da fala. Portanto aí houve algo deficiente na impostação vocal (internamente à boca) e sua projeção (no ato de sair): são dois recursos a serem trabalhados em dois tempos, além da articulação. Nem todos os atores tem um potencial vocal do porte de Arthur OLiveira Santos (Montag 1) ou de Hugo Reis (Montag 2), de longe, nesse quesito, os melhores em cena. Não entendemos terem sido alternadas a interpretação do mesmo personagem por dois bons atores diferentes. No meu ver ambos foram prejudicados: OMontag 1 foi tolhido da transformação do personagem de "brain-washed ativista" para sua humanização cultural, com as nuances necessárias para que sua postura física e expressiva revelasse a transição. O Montag 2 já nasceu humanizado e só nas falas revela seu "estado-obediência cega" anterior. A alternância dos personagens prejudicou mais os atores do que a platéia pois os interpretes deixaram de evidenciar o amadurecimento do ator/personagem, em quanto a platéia teve um prato servido que conseguiu degustar logo após uma fração de segundo de hesitação. Muitos dos formandos terão excelentes carreiras se a enfrentarem com paixão e perseverança, com coragem e desprendimento. E sobretudo com humildade. Pena que assisti ao último espetáculo: teria gostado talvez de rever detalhes, saborear de novo alguns momentos surpreendetentes na cenografia, a movimentação das estantes, a gesticulação delicadíssima com que algumas atrizes folhearam os livros, o aparecimento refrescante de Aldonza a um Dom Quixote demasiadamente circense pelo excesso de caracterização. Mas teatro é isso: um espetáculo ao singular.

    sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

    O CLUBE DOS ANJOS - G U L A

    Autor: Luis Fernando Veríssimo

    Editora: Objetiva 1998


    Lindo: esse livro deveria ser vendido e exposto em Galeria de Arte, com direito a vernissage e tudo mais. Na capa mil vermelhos se cruzam, se perseguem, se atropelam, com e sem contornos, com e sem intensidade, às vezes parecendo sombras, outras em fuga a fora...e a dentro das lapelas. O título, em letras brancas e finas estão aprisionadas pelas palavras "GULA": quatro letras em relevo,transparentes e luzidias, quase imperceptíveis mas presentes e intrigantes a abrir a curiosidade dos dedos de quem o manuseia pensando se irá comprá-lo. Antes de encontrar o texto, mais duas páginas de pretos e vermelhos mais intensos onde descobre-se uma coroa de cajus a contornar pratos, sempre pretos e vermelhos, de estilos diferentes, num dos quais um pássaro parece gangorrar-se com olhar suspeito. Ao folhear mais, a primeira página de cada capítulo é impressa em branco sobre fundo preto com letras surpreendentemente blown-up. Na última página de cada capítulo, sobrando espaço - em preto sobre branco, com letras normais -aí estão, de novo, em desenhos cinzentos, quase transparentes, os cajus, alguns pratos e hieroglifos em forms de folhas. O curioso já resolveu comprar o livro. Ao pesquisar os colaboradores daquela edição tão atraente, impossível não aplaudir Victor Burton, responsável pela capa e projeto gráfico. E uma Beatriz Milhazes, a quem se dá crédito de "ilustração da Capa GULA" SIC!...então a palavra GULA não fazia inicialmente parte do título que o Veríssimo lhe dera? Ele ganhou um presentão! O agora feliz dono do livro dispensa até o embrulho e a sacolina plástica da Livraria...oops, da Galeria! No assento do carro, ao seu lado, o intenso e fantasioso colorido ocupa o espaço de uma nova namorada. Esta noite estará muito ocupado... Ah, sim, mas: e o livro? Quem sou eu para estar resenhando um Luis Fernando Veríssimo...

    segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

    GUESS...

    Faz muito calor. Três horas da tarde, sol a pique e o trânsito não anda: só dez metros de farol em farol. Resolvo desligar o motor a cada sinal vermelho para que o carro não esquente tanto. Também, quem manda ter a malograda idéia de voltar do centro da cidade nesse horário... Por sorte, de dez em dez metros acabo chegando ao ponto onde as árvores de cada lado da Nove de Julho se encontram, se abraçam, me cobrem com alguma sombra. Por que ainda tenho um carro? Vou vendê-lo o mês que vem, aplico o dinheiro para andar só de taxi quando for absolutamente necessário. O 4x4 de placa vermelha à minha frente tenta uma manobra para colocar-se no corredor dos ônibus e, quem sabe, assim entrar no túnel com mais facilidade. E não é que ele consegue? Agora estou atrás de um Ka, pequeno, igualzinho ao meu. Que bom: por falta de volume visual à minha frente, tenho a impressão de poder respirar melhor, consigo até ver o céu. Lá em cima os predios parecem me olhar com paciência, quase com compreensão. Um deles, o mais baixo, parece diferente: nossa! Será que vão demoli-lo? Até os vidros todos já tiraram! Através do vazio dos janelões vejo o céu azul e olha: tem até algumas nuvenzinhas! Será que mais tarde chove? A luminosidade do dia apazigua minha alma, minha irritação, meu bufar. Pelo menos o começo daquela demolição me alegrou. Olho de novo para ela... Deus...Não é nada disso! Nossa, que bonito!

    domingo, 30 de janeiro de 2011

    ........E UM GRANDE PRESENTE

    Muito a propósito do comportamento animal e da coragem de um abnegado como o Sanbernardo da minha crônica anterior, acabo de receber de um grande amigo, Rubens Saboya, o escultor de fortes bronzes com a leveza de um grande poeta, o seguinte e-mail que aqui ficará registrado para sempre:

    "Perto deste lugar
    repousa um ser
    beleza sem vaidade
    força sem insolência
    coragem sem ferocidade
    e todas as virtudes, sem os vícios dos homens
    este elogio, que não passaria de adulação absurda
    se estivesse escrito sobre cinzas humanas,
    é apenas um justo tributo à memória de
    Boatswain, um cão
    nascido em Terra-Nova em maio de 1803
    e morto em Newstead Abbey, em 18 de Novembro de 1808"

    Lord Byron nasceu em 1788, ele tinha 20 anos
    quando escreveu este epitáfio.
    A biografia da qual retirei o texto é de André Maurois, boa
    de ler!
    O Byron é um dos meus heróis
    Beijo e abraço saudoso, Rubens "

    Só tenho que agradecer ao Saboya este presente que partilho com meus amigos e leitores,
    em homenagem à arte dos dois...

    quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

    CRÔNICAS DOLOMÍTICAS...

    Dolomíta é o nome geológico de uma rocha incomum. É muito típica de uma parte pequena dos Alpes, quase no último trecho à direita de quem olha o mapa, da cadeia montanhosa em arco que forma a fronteira natural da Itália. A rocha tem como característica uma coloração rosada que por seus cristais embutidos - e não visíveis - cria uma refração única dos raios solares colorindo as pistas nevadas e até os vales verdes mais longinquos.
    Foi lá, uma vez ,que admiramos o fenômeno de num pico nevado e ensolarado. No fim da tarde, surpreendentemente, nos foi negada a descida pelo teleférico. O encarregado explicou que havia sido divulgada há poucos minutos a chegada de uma tempestade de vento e neve que colocaria em perigo o trajeto.
    Chegaram mais dois casais com o mesmo problema e todos fomos encaminhados para uma "báita": este é o nome que se dá aos refúgios permanentemente espalhados em diversos pontos alpinos para todo tipo de emergências. O mais perto estaria a mais ou menos 150/200 metros de distância, detrás de um pico.
    Foi difícil chegar lá, pois todos tinhamos botas para neve, até com os pregos, mas não as raquetes necessárias para não afundar. Enfim, sim chegamos.
    Ao entrar tivemos que esperar que dois esquiadores saissem pela única porta escoltando um cachorro San-Bernardo com seu barrilzinho de conhaque no pescoço e um curioso brinco vermelho fincado numa das orelhas. Era a ronda obrigatória em busca de pessoas perdidas ou feridas. Ficamos todos apreensivos imaginando que, sim, afinal, alguém poderia ter ficado para trás.
    O interior da báita era quente, confortável, com pufes ao redor das paredes e ao lado da lareira onde, por uma corrente, estava suspenso um balde de cobre com água fervendo. A encarregada, uma velha senhora simpática, descartou com um grande gesto o gatão que estava dormindo no seu colo e que correu a aninhar-se junto de um Pastor-Alemão, que também dormia tranquilo num canto do salão perto de uma pilha de lenha.
    A velha senhora, pareceia uma pintura de Bruegel: aparentava mais do que seus 50/60 anos, pela pele queimada do sol, sulcos profundos mas um sorriso encorajador; malha grossa, calças enormes metidas dentro de longas botas peludas, cabelo no topo da cabeça amarrado com um chumaço de fitas coloridas.
    Ao distribuir canecas com saquinhos de chá para que nos servíssemos da água da lareira, falava algo lindo mas ininteligível: seguramente um dos dialetos locais, mistura de véneto, alemão da Áustria transalpina e do eslavo adriático.
    Canecas na mão, algumas encrementadas com doses de aguardente, começamos e conhecer-nos enquanto o vento uivava lá fora e a neve caia vagarosamente e de tempo em tempo, era varrida por grandes sopros silenciosos.
    Os holandeses, falando um inglês arranhado, eram fluoricultores em Keukenhoff, e o outro casal, velhos ingleses que á há alguns anos viviam na França, orgulhosamente confessaram-se exilados gastronômicos.
    O tempo passava sem que percebéssemos.
    Subitamente, gato e cachorro agitaram-se: orelhas em pé, patas em alerta. Na única janela, vimos os vidros congelados em desenhos cristalinos e pouca neve rodeando lá fora.
    O vento havia caido como por milagre e um silêncio se instalou no salão numa expectativa tensa. Antes que alguém pudesse falar, a porta se abriu: entrou o San-Bernardo com seu pelo rígido como estalactites, o sopro de sua fadiga saindo em pequenas fumaças intermitentes de seu bocão aberto.
    Foi naquele momento a aventura do imprevisto, a grande emoção que cortou a respiração de todos os presentes, menos a da velha senhora que continuou sorrindo como se soubesse o que aconteceria. O gatão malhado e o Pastoralemão encurralaram o San-Bernardo para o canto da sala, junto das lenhas e antes mesmo que a encarregada conseguisse retirar o barrilzinho do pescoço do cão quase congelado, os outros animais começaram a lambê-lo a partir dos olhos e das orelhas, no sentido do pelo até o rabo curto e rígido.
    O gato, chegando ao rabo, voltava à cabeça passando por cima do cachorro já na metade do caminho, numa alternância rítmica e carinhosa.
    O silêncio foi absoluto durante muitos minutos e a imobilidade de todos foi interrompida pela senhora inglesa ao meu lado que, num gesto calmo e discreto, passou-me um lencinho amarrotado e já molhado.