Autor: Muriel Barbery
Título Original: L'Élégance du hérisson
Edição: Companhia das Letras 2008
Tradução: Rosa Freire d'Aguiar
A autora Muriel Barbery nasceu em Bayeux, pequena cidade medieval da Normandia, de origem galo-românica, que conserva, e cultua, marcos de grande valor histórico, arquitetônico e artístico. Não é de se estranhar que Barbery tenha desenvolvido lá a virtude - e o vicio - da observação profunda a que foi estimulada desde seu nascimento. Uma catedral de 900 anos, os majestosos "remparts", o ferro batido nos portões, nas janelas, nos pequenos palácios e castelos ainda existentes; tudo deve ter aguçado e gravado em seus olhos o material riquíssimo que lhe permitiu identificar os clichês que personagens, hábitos e peculiaridades ainda identificam a França.
Mas Barbery escolheu subverter aqueles clichês numa história repleta de casos e atitudes que, no começo, parecem inusitadas ao leitor, mas que ao longo do livro, resultam na reconstrução harmônica e otimista de personagens, hábitos e peculiaridades, sem tirar-lhes nem minimizar-lhes as raízes.
Rénée, "concierge" (zeladora),de um elegante, classudo e super-clássico edificio residencial de Paris, não é bronca, metida, bisbilhoteira e nem fofoqueira como a tradição manda. Ao contrário, ela pensa e respira clássicos da música e da literatura como se tivesse-se formado na Sorbonne;
exteriormente, entretanto, se comporta como esperam dela os moradores, esnobes e exigentes.
E a pequena Paloma, há doze anos caçula de uma família vip, não é -apesar dos esforços de todos os membros- nem mimada nem consumista, ao contrário: é crítica do mundo que a sustenta e, para sair dele, rumina as mil maneira com que poderá, sem causar danos materiais à propria casa e à dos vizinhos, suicidar-se quando cumprir treze anos.
O interessante da construção do livro está também no cuidado com que a autora escreve em primeira pessoa o que sai da cabeça das duas personagens principais. Ela utiliza caracteres gráficos bem distintos para cada uma. Rénée chega-nos em capítulos com titulos pertinentes aos acontecimentos, impressos em letras normais. Já a pequena e inquieta Paloma nos vem em negrito, e com capítulos intitulados "pensamentos profundos" numerados. Parece ter sido intenção de Burbery chamar a atenção para a profunda diferência de dois cérebros (um maduro e outro em formação) para que o leitor possa, a cada capítulo quase sempre alternados, compara-los transportando-se na personagem da vez.
Tanto Rénée como Paloma estão "mal a l'aise" no mundo onde vivem: Rénée disfarça adotando o clichê - só aparente - que é devido à sua profissão. Paloma assume sua intolerância não com rebeldia mas com apatia. Até o nome Paloma que lhe foi imposto ao nascer, parece obrigá-la a um comportamento modernoso, sofisticado e dispendioso adotado pelo resto da família onde o pai, alto funcionário público que a menina desconfia corrupto, vive no mundo dos políticos, a irmã é uma consumista a espera de um marido rico e a mãe -apesar da escolaridade elitista - tem, no fundo no fundo, a bisbilhotice de uma "concierge".
Tudo corre paralelamente: as duas vidas entremeadas de pequenos acontecimentos nos outros apartamentos, pontuados pela passagem sistemática de uma Manuela, faxineira portuguesa, ela também clichê do dia a dia parisiense. Ela trabalha, um ou dois dias por semana, na casa de quase todos os moradores e acaba, no fim da tarde, parando na da Rénée para tomar chá.
Uma faxineira estrangeira tomando chá, de xicara e de sabedoria, com uma zeladora inusitada.
Não bastasse a escapadela de Paloma em refugiar-se na cultura japonesa - popular ou não -, no meio do livro aparece um novo proprietário e morador: Kakuro Ozu. Seu olho de tradição milenar parece identificar de imediato que Rénée não é o que parece e que a pequena Paloma e sua melhor amiga nigeriana são personalidades inquitantes para um maduro senhor japonês que ostenta uma vastíssima cultura internacional mas depara-se coma a adolescência ocidental interessada na oriental antes mesmo de conhecê-lo.
Aí está um cruzamento de olhares, cada personagem debruçando-se e identifcando-se com os outros: encontros para chá, curiosidades inesperadas, afinidades a flor da pele e finalmente uma provável esperança amorosa entre os dois seres que, finalmente, descartadas as barreiras sociais, poderiam compartilhar prazerosamente suas velhices.
Mas Barbery não se atreve ao final feliz: a reconstrução interior de uma adolescente que aprende com dois adultos estranhos a amar a vida, é o final feliz do livro. E o do leitor: ao vencer as estreanhezas que lhe causam os capítulos iniciais, o leitor é empurrado a conjeturas curiosas e frequentemente bem humoradas: ...se as pessoas que conheço não fossem aquilo que elas aparentam, quanto mais caloroso poderia ser nosso convívio...]
E aí está um desconcertante e lindo romance filosófico.
Bayeux, a pequena cidade da autora, ostenta, entre seus marcos históricos, a famosa tapeçaria da Rainha Mathilde**, do século XI, em que algumas das figuras são tão estilizadas e naif que parecem modernas: descobri lá um grupo de quatro cavaleiros com silhuetas, atitudes e posturas que remetem - pasmem - aos "The Beatles". E se não fossem eles soldados, mas músicos ou saltimbancos no séquito das tropas de Guilherme I a caminho da conquista da Inglaterra?
Barbery, ao criar o livro, manteve presente no inconsciente aquela sequência do bordado com todas as dúvidas que ele carrega: pessoas e coisas abrigam e acalentam as mais raras, surpreendentes e maravilhosas surpresas.
** A tapeçaria representa Guilherme I de Aquitânia (Duca de Normandia, dito inicialmente "O Bastardo" e depois "O Conquistador") com seu exército, a caminho da Inglaterra que ele conquistou em 1006 AD.
O bordado de lã sobre lã crua, é atribuida à sua esposa Mathilde de Flandres e teria sido iniciada quando as tropas sairam para a guerra, ilustrando as etapas que os mensageiros traziam à rainha. Estudiosos pretendem que ela tenha sido executada numa oficina artesanal por encomenda de um primo de Guilherme I, bispo de Bayeux, o que não lhe tira a importância histórica.
Recentemente pesquisadores consideraram que essa tapeçaria (58 cenas em 70 métros de cumprimento por 0.50 de altura) é obra precursora da "Banda Desenhada", hoje dita "Histórias em Quadrinhos".
sexta-feira, 21 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
SEDA
Mal abro a gaveta, ela imanta-se ao meu corpo. Transforma-se na penugem invisível de minha pele. É quente, macia, natural. E é animal: nasceu de outro ser.
E ela tem perfume. Não sei se é o dela ou é o meu que ela nina feliz.
Sei que algo dela está sempre comigo. É a feminilidade que minha idade não descartou. É a sensação de que, da mesma forma em que ela nasceu, ela me envolve num casulo que me protege, me acarinha, que não me deixa esquecer o gostoso farfalhar de seu toque.
Pobres dos homens que, quando muito, a tem debaixo de um colarinho, em cima de uma camisa.
Busquem, achem, provem aquela sensação de convite, de aconchego e de delirio que ela sussurra do outro lado de outra pele.
Os homens de minha vida, sabem.
E ela tem perfume. Não sei se é o dela ou é o meu que ela nina feliz.
Sei que algo dela está sempre comigo. É a feminilidade que minha idade não descartou. É a sensação de que, da mesma forma em que ela nasceu, ela me envolve num casulo que me protege, me acarinha, que não me deixa esquecer o gostoso farfalhar de seu toque.
Pobres dos homens que, quando muito, a tem debaixo de um colarinho, em cima de uma camisa.
Busquem, achem, provem aquela sensação de convite, de aconchego e de delirio que ela sussurra do outro lado de outra pele.
Os homens de minha vida, sabem.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
CORRUPÇÃO.....e etc...
CRÔNICA
Conheci Marta num avião: eu voltando de visitar uma amiga em Filadelfia, ela saindo de Orlando com os três filhos. Mil pacotes e sacolas na cabine, as crianças cobertas de apetrechos Disney: orelhas, bonês, camisetas e pendurucalhos vários. Muito falante, Marta não hesitou em me passar o entusiasmo, seu e dos meninos, por aquela excursão tão esperada que resultou, finalmente, maravilhosa. Minha poltrona de corredor na fileira do meio do avião, ela sentada ao meu lado e as crianças ocupando o resto dos assentos com fácil saída do outro lado para as indefectíveis debandadas durante o vôo.
Para mim foi difícil fechar o livro de suspense comprado no aeroporto, tanto quanto foi fácil para ela introduzir-se definitivamente no restante das minhas horas de vôo. Só faltou me dizer sua idade: o resto foi tudo. O colégio de renome onde as crianças estavam matriculadas me indicou que morávamos no mesmo bairro. Aí foi impossível deixar de participar da vida deles com muito mais detalhes: a academia da moda para ela, mesmo mais distante de outras excelentes no bairro, a casinha na praia para as férias de verão, o carro que ganhou no Natal, só para ela.
-" Sabe, Oscar é maravilhoso para mim e para os filhos. Tem um pequeno escritório de advocacia só com dois estagiários e trabalha muuuito. Gosta do que faz e faz muito bem. Mas muito bem mesmo! imagine que conseguiu colocar na cadeia um fiscal da prefeitura que estava extorquindo dinheiro da loja da minha mãe só por um pequeno detalhe no alvará".
-" Certo, disse eu, se todos fizessem assim, haveria menos corrupção, não é?"
Fui apresentada ao Oscar, na chegada: engravatado num sábado de manhã, Rolex de aço no pulso, chaveiro de carro rodeando no dedo. Estranhei ele estar perto da esteira da bagagem: é permitido a não viajantes entrar naquele recinto?
A primeira mala da Marta saiu logo; faltavam ainda quatro dela quando chegou a minha, única.
Saí antes de todos, arrastando minha bagagem como uma aeromoça, frasqueira na mão, livro debaixo do braço, com marcador ainda nas primeiras páginas.
Acabei encontrando algumas vezes Marta no supoermercado do bairro, uma única vez na livraria da esquina. Por mais que ela insistisse, evitei aceitar visitar o apartamento recém inaugurado, não longe do meu. Parecia uma família bacana, entretanto, na idade que eu já tinha, um tanto fora do meu circuito habitual. Mas desejo que sejam felizes, pois creio que Marta e Oscar se gostem de verdade.
Ah! Esqueci de contar: eles nunca se casaram. Ela se beneficia da lei que garante às filhas solteiras de militar a perpetuação de sua aposentadoria. O pai dela foi coronel, ela me disse com muito orgulho. Em moeda atual o coronel ainda deve render algo em torno de setemiloitocentos reais por mês.
Conheci Marta num avião: eu voltando de visitar uma amiga em Filadelfia, ela saindo de Orlando com os três filhos. Mil pacotes e sacolas na cabine, as crianças cobertas de apetrechos Disney: orelhas, bonês, camisetas e pendurucalhos vários. Muito falante, Marta não hesitou em me passar o entusiasmo, seu e dos meninos, por aquela excursão tão esperada que resultou, finalmente, maravilhosa. Minha poltrona de corredor na fileira do meio do avião, ela sentada ao meu lado e as crianças ocupando o resto dos assentos com fácil saída do outro lado para as indefectíveis debandadas durante o vôo.
Para mim foi difícil fechar o livro de suspense comprado no aeroporto, tanto quanto foi fácil para ela introduzir-se definitivamente no restante das minhas horas de vôo. Só faltou me dizer sua idade: o resto foi tudo. O colégio de renome onde as crianças estavam matriculadas me indicou que morávamos no mesmo bairro. Aí foi impossível deixar de participar da vida deles com muito mais detalhes: a academia da moda para ela, mesmo mais distante de outras excelentes no bairro, a casinha na praia para as férias de verão, o carro que ganhou no Natal, só para ela.
-" Sabe, Oscar é maravilhoso para mim e para os filhos. Tem um pequeno escritório de advocacia só com dois estagiários e trabalha muuuito. Gosta do que faz e faz muito bem. Mas muito bem mesmo! imagine que conseguiu colocar na cadeia um fiscal da prefeitura que estava extorquindo dinheiro da loja da minha mãe só por um pequeno detalhe no alvará".
-" Certo, disse eu, se todos fizessem assim, haveria menos corrupção, não é?"
Fui apresentada ao Oscar, na chegada: engravatado num sábado de manhã, Rolex de aço no pulso, chaveiro de carro rodeando no dedo. Estranhei ele estar perto da esteira da bagagem: é permitido a não viajantes entrar naquele recinto?
A primeira mala da Marta saiu logo; faltavam ainda quatro dela quando chegou a minha, única.
Saí antes de todos, arrastando minha bagagem como uma aeromoça, frasqueira na mão, livro debaixo do braço, com marcador ainda nas primeiras páginas.
Acabei encontrando algumas vezes Marta no supoermercado do bairro, uma única vez na livraria da esquina. Por mais que ela insistisse, evitei aceitar visitar o apartamento recém inaugurado, não longe do meu. Parecia uma família bacana, entretanto, na idade que eu já tinha, um tanto fora do meu circuito habitual. Mas desejo que sejam felizes, pois creio que Marta e Oscar se gostem de verdade.
Ah! Esqueci de contar: eles nunca se casaram. Ela se beneficia da lei que garante às filhas solteiras de militar a perpetuação de sua aposentadoria. O pai dela foi coronel, ela me disse com muito orgulho. Em moeda atual o coronel ainda deve render algo em torno de setemiloitocentos reais por mês.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
BLACK-OUT, Um espetáculo iluminado
RESENHA
Pouco se dá atenção ao teatro amador. Vamos com alguma condescendência incentivar os sonhos dos jovens que ambicionam, um dia, ser profissionais aplaudidos. E tão concentrados nos atores, nossos filhos ou filhos dos nossos amigos, que poucas vezes atentamos aos detalhes e, pior, aos desconhecidos que, atrás dos bastidores, criam o sempre muito necessário para que os atores tenham a atmosfera certa para manter-se nas personagens, para não esquecer as falas, para cumprir com as marcações.
Em BLACK-OUT - apresentado por poucos dias no teatro da Cultura Inglesa de Pinheiros - nada pôde passar desapercebido: o esmerado cuidado dos envolvidos no espetáculo saltou de imediato aos olhos desde a primeira cena.
O dramaturgo escocês Davey Anderson costuma abordar temas politico-sociais mesmo nos textos - que são sua maioria - idealizados e escritos para o teatro e atores infanto-juveniis. O tradutor Marco Aurélio Nunes, nos trouxe com muita propriedade uma adaptação verbal clara e muito congruente com nossa realidade. O idealismo exacerbado dos jovens cria desentendimentos no âmbito familiar, especialmente com as mães.
Ou seriam as diferências pais-filhos que impulsionam os jovens para a aceitação e a prática de idealismos de que mal entendem os conceitos?
Anderson escolheu a reincidência do Hitlerismo como exemplo do que poderia ter sido a visão escocesa dos infindáveis levantes irlandeses; ou o crescimento tardio de um novo peronismo na Argentina, ou o ressurgimento de algum esquerdismo em algum país da america latina.
Ao passo que o mundo se renova, ele também se repete em módulos variados mas reincidentes, diferentes sim, mas novamente perniciosos.
Impecável a direção de Rafael Masini, jovem de olhar maduro, pontuada de movimentação cênica harmoniosa e, ao mesmo tempo impactante; a música de Rafael Zenorini permitiu ao diretor "solfeja-la" com mestria nos momentos mais oportunos e mais sublinhados.
Os atores tem, um bom preparo de expressão corporal e vozes trabalhadas para chegar claramente ao espectador, cuspindo emoções, silenciando medos. Um deles especialmente (Arthur Oliveira) ostenta uma invejável projeção vocal aliada a um agradável tom"redondo" e a uma rara articulação. Muitos atores de carreira, até consagrados, ainda pecam por isso.
Enfim um BLACK-OUT mais que iluminado. Obrigada Benê, por ter-me levado
Pouco se dá atenção ao teatro amador. Vamos com alguma condescendência incentivar os sonhos dos jovens que ambicionam, um dia, ser profissionais aplaudidos. E tão concentrados nos atores, nossos filhos ou filhos dos nossos amigos, que poucas vezes atentamos aos detalhes e, pior, aos desconhecidos que, atrás dos bastidores, criam o sempre muito necessário para que os atores tenham a atmosfera certa para manter-se nas personagens, para não esquecer as falas, para cumprir com as marcações.
Em BLACK-OUT - apresentado por poucos dias no teatro da Cultura Inglesa de Pinheiros - nada pôde passar desapercebido: o esmerado cuidado dos envolvidos no espetáculo saltou de imediato aos olhos desde a primeira cena.
O dramaturgo escocês Davey Anderson costuma abordar temas politico-sociais mesmo nos textos - que são sua maioria - idealizados e escritos para o teatro e atores infanto-juveniis. O tradutor Marco Aurélio Nunes, nos trouxe com muita propriedade uma adaptação verbal clara e muito congruente com nossa realidade. O idealismo exacerbado dos jovens cria desentendimentos no âmbito familiar, especialmente com as mães.
Ou seriam as diferências pais-filhos que impulsionam os jovens para a aceitação e a prática de idealismos de que mal entendem os conceitos?
Anderson escolheu a reincidência do Hitlerismo como exemplo do que poderia ter sido a visão escocesa dos infindáveis levantes irlandeses; ou o crescimento tardio de um novo peronismo na Argentina, ou o ressurgimento de algum esquerdismo em algum país da america latina.
Ao passo que o mundo se renova, ele também se repete em módulos variados mas reincidentes, diferentes sim, mas novamente perniciosos.
Impecável a direção de Rafael Masini, jovem de olhar maduro, pontuada de movimentação cênica harmoniosa e, ao mesmo tempo impactante; a música de Rafael Zenorini permitiu ao diretor "solfeja-la" com mestria nos momentos mais oportunos e mais sublinhados.
Os atores tem, um bom preparo de expressão corporal e vozes trabalhadas para chegar claramente ao espectador, cuspindo emoções, silenciando medos. Um deles especialmente (Arthur Oliveira) ostenta uma invejável projeção vocal aliada a um agradável tom"redondo" e a uma rara articulação. Muitos atores de carreira, até consagrados, ainda pecam por isso.
Enfim um BLACK-OUT mais que iluminado. Obrigada Benê, por ter-me levado
segunda-feira, 22 de março de 2010
MANGANELLI E EU

*** Hoje levei meu amigo Giorgio Manganelli a um passeio pela cidade e, no fim da tarde, ao cinema assistir "Fogo e Paixão" dos arquitetos Isay Weinfeld e Marcio Kogan. Giorgio não conhece suficientemente a cidade para apreciar o filme, mas me agradeceu: conhecia um dos panoramas.
É perigoso caminhar pelo elevado, além de proibido. Mas o castelinho está lá. Feio e ruim de proporções, como se saído só de lembranças infantis. Continua lá, desde sempre. O homem não sabe há quantos anos o viu pela primeira vez, mas ainda sente o ímpeto de cancelar de seus olhos aquela construção horripilante.
Impossível: ele não só o vê, ele o olha! Do alto do viaduto, descobre mais um detalhe de decadência, mais um requadro de vidro trincado no janelão que abre sobre o terraço; mais sujeira de pombos no parapeito, mais lácrimas empretecidas pela fuligem, escorridas pelas paredes externas já sem cor, entre labirintos de mofo. Continua cenário de fábula, de conto de fadas gasto, regasto, rançoso, embalsamado...
Seus olhos recebem a untuosidade do tempo e as narinas as lembranças de pratos abandonados na mesa, com ossos escalpelados, talheres cruzados, guardanapos amassados. Ainda lê neles as espectativas não alcançadas.
Ele sabe por que acaba voltando. Já não quer surpreender-se com o aparecimento da moça, quase uma fada ...-ou seria a Branca de Neve...- que saisse ao balcão procurando-o com olhos, sorriso e mãos de arpista. Mas acaba voltando e olhando. Agora a figura da mulher, que atravessou o tempo e as esperanças, não mais passa pela porta-janela para alcançar o parapeito. Ele só veria suas rugas, o olhar parado, pálpebras caidas como os seios dentro do decote, sua roupagem de conto de fadas, desbotada e enrugada, a gola branca engomada em arco a emoldurar o penteado rebuscado, gasto, regasto, embalsamado...
E o homem volta, olha e contempla. Começa a tirar disso sua paz. É pouco o que lhe sobrou, mas é sólido, pois cada vez que sobe ao viaduto, debruçado no elevado, arranca, e recolhe, uma pedra, um caco, uma trave. Até o dia em que finalmente, dará por encerradas aquelas tolas aspirações idas, gastas, regastas, rançosas, embalsamadas...
Continua indo para tocar só com os olhos, a certeza de ter conseguido fugir a tempo da ilusão. Uma ratoeira. Uma trapaça. Como a arquitetura do castelinho, como a mulher do parapeito, como as fendas dos muros erguidos sobre aquele nada, irremediavelmente cinzento.
Hoje, quase apaziguado, duvidou: seria o castelinho uma real construção de um mau arquiteto, ou só a miragem de um horizonte gasto, regasto, rançoso, embalsamado......

É perigoso caminhar pelo elevado, além de proibido. Mas o castelinho está lá. Feio e ruim de proporções, como se saído só de lembranças infantis. Continua lá, desde sempre. O homem não sabe há quantos anos o viu pela primeira vez, mas ainda sente o ímpeto de cancelar de seus olhos aquela construção horripilante.
Impossível: ele não só o vê, ele o olha! Do alto do viaduto, descobre mais um detalhe de decadência, mais um requadro de vidro trincado no janelão que abre sobre o terraço; mais sujeira de pombos no parapeito, mais lácrimas empretecidas pela fuligem, escorridas pelas paredes externas já sem cor, entre labirintos de mofo. Continua cenário de fábula, de conto de fadas gasto, regasto, rançoso, embalsamado...
Seus olhos recebem a untuosidade do tempo e as narinas as lembranças de pratos abandonados na mesa, com ossos escalpelados, talheres cruzados, guardanapos amassados. Ainda lê neles as espectativas não alcançadas.
Ele sabe por que acaba voltando. Já não quer surpreender-se com o aparecimento da moça, quase uma fada ...-ou seria a Branca de Neve...- que saisse ao balcão procurando-o com olhos, sorriso e mãos de arpista. Mas acaba voltando e olhando. Agora a figura da mulher, que atravessou o tempo e as esperanças, não mais passa pela porta-janela para alcançar o parapeito. Ele só veria suas rugas, o olhar parado, pálpebras caidas como os seios dentro do decote, sua roupagem de conto de fadas, desbotada e enrugada, a gola branca engomada em arco a emoldurar o penteado rebuscado, gasto, regasto, embalsamado...
E o homem volta, olha e contempla. Começa a tirar disso sua paz. É pouco o que lhe sobrou, mas é sólido, pois cada vez que sobe ao viaduto, debruçado no elevado, arranca, e recolhe, uma pedra, um caco, uma trave. Até o dia em que finalmente, dará por encerradas aquelas tolas aspirações idas, gastas, regastas, rançosas, embalsamadas...
Continua indo para tocar só com os olhos, a certeza de ter conseguido fugir a tempo da ilusão. Uma ratoeira. Uma trapaça. Como a arquitetura do castelinho, como a mulher do parapeito, como as fendas dos muros erguidos sobre aquele nada, irremediavelmente cinzento.
Hoje, quase apaziguado, duvidou: seria o castelinho uma real construção de um mau arquiteto, ou só a miragem de um horizonte gasto, regasto, rançoso, embalsamado......

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
AVENIDA HIGIENÓPOLIS - UM BAIRRO, QUASE UM PARQUE

Crônica
Depois de cinquenta anos - e elas só florescem a cada cinquenta anos - as palmeiras de Burle Marx floresceram no aterro do Flamengo. Burle Marx sabia o que estava fazendo e plantou o que tinha certeza que vingaria para sempre.
Não há raridades intencionais nos parques de São Paulo mas a exuberância do verde perene da vegetação tropical está em toda parte.
Aquela Avenida Higienópolis – provavelmente uma das mais bonitas da cidade – é um exemplo. Com sua gama compacta de árvores que se encontram no ar ela é o túnel que protege do sol, onde o verde atravessa as estações.
A avenida vai fluindo lentamente até debruçar-se sobre o vale do Pacaembu admirando os tetos dos casarões antigos transformados em showroom. No inverno aspira o multicolorido das azaléias como se elas exalassem aroma e conversa com as casas que escalaram, atrevidas, as encostas de Perdizes. Em dia de jogo, observa benévola as hordas que desfilam, rítmicas, como exércitos de saúvas.
Mas sinto falta, depois de alguns anos que mudei de bairro, daquelas enormes vértebras de aço, soldadas uma em cima da outra, a retratar a espinha dorsal que o escultor Caciporé Torres , criou para definir o porte e a alma da Avenida Higienópolis. Estavam em frente de uma antiga casa que durante muitos anos abrigou um Banco de cujo nome já não lembro. A elegante senhora a quem perguntei sobre o paradeiro de banco e escultura, respondeu que também não sabia, enquanto seu poodle se atirava à arvore mais próxima.
Todos esquecemos rapidamente. Mas é um pouco adiante da avenida que meu pisar crocante sobre folhas palmadas e enrugadas me leva a lembranças mais distantes ainda. Não foi Burle Marx que plantou – só Deus sabe há quanta gerações – aqueles plátanos, de tronco em manchas cinzentas, estranhos ao clima da cidade. Ele saberia que a longo prazo acabariam abastardados, quase irreconhecíveis. Ainda assim, aqueles plátanos descolorem suas folhas no outono, e as perdem no inverno; as repõem na primavera e criam seus frutos no verão: pequenas bolas espinhosas, mas vazias. Plátanos são castanhos selvagens e, mesmo sem frutos, ainda estão lá no trecho que leva a dois colégios. Frondes, barulhos e caminhos: tudo idêntico ao que eu, criança, pisava ao ir à minha escola, em outro continente.
Não há esquecimentos em São Paulo sem frestas de lembranças: a cidade está cheia delas.
Já houve choupos plantados inutilmente na inauguração da 23 de Maio. Não duraram seis meses. E já houve um carvalho em frente à escadaria do “Les Oiseaux” na Rua Caio Prado. Não voltei depois que o colégio foi desativado. O seu terreno já virou mil coisas: de circo a estacionamento e agora vai ser mais um parque para os pulmões e as crianças da cidade. Provavelmente aquela árvore inusitada não estará mais lá.
Tudo continua porém na memória dos que escolheram fazer do bairro - e da cidade - sua casa acolhedora, guardando no sótão um baú de recordações. Pieguice.....
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O PRIMEIRO BAILE
CONTO
O primeiro vestido de baile, o primeiro discretíssimo perfume, a primeira maquillage suave, os primeiros dezesseis anos de vida, cheios de ansiedades. O salão cheio de sedas e tules: branco, rosa, algum amarelo. O de Clara, o único verde. Muitas flores, flores e mais flores, nas mesas, em volta da pista, nas cinturas, nos decotes. Uma margarida branca numa fita dourada em volta do pescoço, sem jóias. Clara não tinha. E as danças, nos braços do mesmo jovem, sem trégua.
Não me deixe sentar, não quero dançar com outro....
Ele não tem namorada. Ele convidou a mim para seu baile de formatura.
Ele é o irmão mais velho de minha melhor amiga.
Em breve irá à França estudar arqueologia.
.......Será ele meu primeiro namorado.....
.......Dele meu primeiro beijo.....
Clara vinha sonhando com ele, desde o dia em que foram em bando ao cinema, onde ele fizera questão de sentar ao lado dela, segurando-lhe a mão.
Era bom dançar com ele, seguro, bonito mesmo
Quase tão bonito como papai.
Um vinho branco suave, coqueteis de frutas, tortas pequeninas, salgadas e doces, em pratos com um escudo pintado num canto, como escudo de uma realeza. Porque não? Ela sentia-se mesmo uma rainha, merecia tudo o que estava acontecendo.
Foi aí, na volta da festa, no portão entreaberto da casa de Clara: as duas mão em concha a levantar-lhe o queixo e um beijo nos lábios. Ela tinha estado esperando aquele momento....Meu Deus, e agora?...
....Vou emporcarlhá-lo com o meu batom!
E se manchar também a lapela do summer jacket?
Mas é tão doce, tão novo, tão emocionante, mais do que beijo normal.
A saliva dele tem gosto de vinho branco.
E a minha será que tem o do coquetel de morango?
Como tenho tanto tempo para pensar em tudo isso?
Um beijo é assim mesmo, dura tanto?
Devagar, estão entrando portão adentro, como para esconder-se de quem por acaso passasse, e, de súbito, impulsivo, ele se afasta enrijecido, como alguém que, de repente, está com medo. De que?
"É tarde. Amanhã te ligo e venho te buscar para ir à praia" -um curto silêncio, quase envergonhado, olhos baixos - e depois:" Eu gosto muito de você, muito mesmo, sabia?"
E sem esperar resposta, com a mão na maçaneta, ele puxou-a para si e a porta fechou-se, calada, sobre o silêncio de Clara
O primeiro vestido de baile, o primeiro discretíssimo perfume, a primeira maquillage suave, os primeiros dezesseis anos de vida, cheios de ansiedades. O salão cheio de sedas e tules: branco, rosa, algum amarelo. O de Clara, o único verde. Muitas flores, flores e mais flores, nas mesas, em volta da pista, nas cinturas, nos decotes. Uma margarida branca numa fita dourada em volta do pescoço, sem jóias. Clara não tinha. E as danças, nos braços do mesmo jovem, sem trégua.
Não me deixe sentar, não quero dançar com outro....
Ele não tem namorada. Ele convidou a mim para seu baile de formatura.
Ele é o irmão mais velho de minha melhor amiga.
Em breve irá à França estudar arqueologia.
.......Será ele meu primeiro namorado.....
.......Dele meu primeiro beijo.....
Clara vinha sonhando com ele, desde o dia em que foram em bando ao cinema, onde ele fizera questão de sentar ao lado dela, segurando-lhe a mão.
Era bom dançar com ele, seguro, bonito mesmo
Quase tão bonito como papai.
Um vinho branco suave, coqueteis de frutas, tortas pequeninas, salgadas e doces, em pratos com um escudo pintado num canto, como escudo de uma realeza. Porque não? Ela sentia-se mesmo uma rainha, merecia tudo o que estava acontecendo.
Foi aí, na volta da festa, no portão entreaberto da casa de Clara: as duas mão em concha a levantar-lhe o queixo e um beijo nos lábios. Ela tinha estado esperando aquele momento....Meu Deus, e agora?...
....Vou emporcarlhá-lo com o meu batom!
E se manchar também a lapela do summer jacket?
Mas é tão doce, tão novo, tão emocionante, mais do que beijo normal.
A saliva dele tem gosto de vinho branco.
E a minha será que tem o do coquetel de morango?
Como tenho tanto tempo para pensar em tudo isso?
Um beijo é assim mesmo, dura tanto?
Devagar, estão entrando portão adentro, como para esconder-se de quem por acaso passasse, e, de súbito, impulsivo, ele se afasta enrijecido, como alguém que, de repente, está com medo. De que?
"É tarde. Amanhã te ligo e venho te buscar para ir à praia" -um curto silêncio, quase envergonhado, olhos baixos - e depois:" Eu gosto muito de você, muito mesmo, sabia?"
E sem esperar resposta, com a mão na maçaneta, ele puxou-a para si e a porta fechou-se, calada, sobre o silêncio de Clara
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