sábado, 30 de junho de 2012
VIOLETA FOI PARA O CÉU
A PRIMEIRA COISA BELA
terça-feira, 19 de junho de 2012
DEUS DA CARNEFICINA - Resenha de Filme
MEDITERRÂNEO
Na Toscana meridional, entre as colinas que escalam suavemente os Apeninos, perto de uma localidade chamada Poggio alle Mura foi descoberto o maior e mais antigo fóssil de baleia encontrado na Itália. Os paleontólogos ainda festejam. O lugar, à distância de mais de trinta quilômetros do mar, nos reporta a um pensamento extraordinário: que lá, em Poggio le Mura” o fundo marinho de mais de cinco milhões de anos atrás, era o habitat natural de baleias e hoje é terreno ideal para uvas de qualidade invejável.
Andando por aquelas redondezas há pouco mais de um mês, lembrei de uma entrevista em que um jornalista eslavo - cuja nome complicadíssimo, não conseguiria lembrar, nem sob tortura,- citou o Mediterrâneo como - e espero reconstituir a frase corretamente, “um mar que não é oceano, mas um mar, pequeno mar nosso, no meio de terras”. Pelo detalhe do “pequeno mar nosso” foi que imediatamente lhe atribui, levando também em consideração a difícil grafia do seu nome, uma nacionalidade banhada pelo Adriático, braço alongado e intimista do “Mare Nostrum.”
E ele, este Mediterrâneo maravilhoso e perfumado, realmente está no meio de terras, seu espírito infiltra-se terras adentro, não importa a quem pertençam. Um mar que não é só lugar geográfico, mas lugar de alma. Aqui se encontram dezenas de povos, milhares de ilhas e milhões de seres humanos. Um mar que, para os justos, une , para os imorais separa.
O Mediterrâneo, - e o esqueleto da baleia provou - invade as terras, todas as terras. Dele emerge um sabor inconfundível de sal e vento, que sopra através dos pinheiros marítimos, infiltra-se pelas praias, pelas curvas das falésias, por botes, barquinhos, lanchas, canoas e pelas balsas que unem margens, aldeias, povoados, cidades. E leva por toda parte o perfume da menta, do orégano, alecrim, lavanda. E do manjericão.
Cada um vê e sente seu próprio Mediterrâneo, mesmo sem ver as praias, mesmo sem estar em suas margens.Eu já estava em Roma e o mar estava presente, no garrir das gaivotas em cima do Tibre, na infinidade de altos e esguios pinheiros marítimos. Como se a cidade estivesse a beira mar. Desse meu sentimento mediterrâneo, e na profundidade do meu próprio ser, voltou a emergir aquela sensação infantil do cheiro dos plátanos, dos ciprestes, dos pinheiros.
As Fontes e os Pinheiros de Roma. Respighi inebriou-se deles, os imortalizou em suítes eloquentes, levando seu perfume junto ao cristalino das fontes que, perpétuas, jorram água sobre mármores poidos a enriquecer-lhes a candura.
Nas paredes de minha mais remota memória voltam a criar-se paisagens: afrescos, lavados a chuva e briza, que ficam arquivados na mente e no paladar, como fossem vinhos saboreados ao por do sol, num imenso terraço que contempla e transpira o horizonte. Horizonte: aquele fiapinho de linha que mar e céu disputam sempre. E jamais conquistam.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
PRIMAVERAS
As estações parecem não ser mais como antigamente, mas ainda fazem seu trabalho.No despertar da primavera, as gemas ainda comparecem nos ramos, as flores florecem e nos lembramos de ter um corpo ainda capaz de reconhecer os sinais do renascer.
A dúvida entre a manga longa e a curta.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
ESTOU INDO...
Aquela das glicinias,
das cerejeira em flor,
das papoulas no meio do trigo,
das margaridinhas nos gramados.
A minha Primavera.
Aquela que já não tenho mais,
nem aqui nem lá...
Deixo beijos a todos.
terça-feira, 6 de março de 2012
REFLEXOS DE " AS CANÇÕES", Documentário de Eduardo Coutinho
E lá estava eu, no trecho mais íngreme da Haddock Lobo, assombrada, conturbada, de repente pequena e insignificante. Poderosa, superior mas insignificante, pequena, envergonhada. Uma dondoca de merda trancada num carro, com mil amostras de madeira, cartelas de cores, tramas e urdiduras artesanais transformadas em tecidos preciosos, exclusivos, caríssimos. Tudo ao meu alcance para decorar um apartamento novo, num país onde o dinheiro corria a rodo apesar de uma ditadura acachapante, onde operários morriam nas obras sem que ninguém notasse.
“A Construção” estava alí nos meus ouvidos, aos meus pés, socando a boca do meu estômago com seu arranjo repetitivo, angustiante, agressivo. Me vi colocada num mercado persa onde ninguém se entende, onde as mercadorias valem mais do que os seres humanos. Num circo onde tudo é estupefação, onde tudo é fácil ver, receber, divertir-se, só por um pequeno tributo na entrada, onde o extenuante suor dos artistas é camuflado no sorriso, no riso, no milagre da alegria.
Vão repetir a música, pensei, têm que repetir, têm que repetir. Fiquei alí até conseguir outra estação de rádio de onde ela, "A Construção" cresceu de novo, com sua atmosfera veemente, seus ruídos de rua, seu galope dirigido a um indefectível destino trágico.
Não era só uma canção: era roteiro, palco, cinema, pintura, arquitetura, projeção fantástica. E sinfonia.
Os refrões, verdadeiros estribilhos, repetiam-se ao mesmo tempo em que as palavras vinham sendo substituídas por outras; em que verbos vinham sendo alterados por outros, conseguindo, com isso, ampliar, enriquecer, transformar o personagem de humano para máquina, de material para etéreo, de ingenuo para divino. Da modéstia inicial, ei-lo enobrecido, mesmo no seu final de pacote bêbado.
A indiferença do transito, dos transeuntes, dos motoristas que continuavam - como eu - ignaros do fato que uma vida é mais do que uma simples construção.
“A Banda” aquela marchinha simples, um tanto sentimentalóide e que muitos anos antes eu mesma havia considerado um pecadilho do autor, de repente, agora, junto com "A Construção", adquiria um significado especial, como se fosse uma toada para acompanhar o destino final daquele ser comum, operário.
Eu provara, quase vinte anos antes, a mesma sensação de humildade perdida ao ouvir os versos premonitórios do samba “Lata d' água”. A sociedade canta mas não se conscientiza.
Obrigada, Coutinho, por oferecer-me a cadeira. Mas não me sentarei nela. Não sei cantar, e prefiro ceder meu lugar para o Chico Buarque com seu olhar azul e seu meio sorriso carnudo: a quintessencia da humanidade, cujas canções, - versos e músicas - não parecem encontrar par no cancioneiro do mundo.